Acabou a era dos Movimentos; que tal o MSM? – Movimento dos sem Movimentos

A breve e avassaladora passagem do movimento tropicalista pela cena musical do país mudou radicalmente a mentalidade da época e as posteriores, nunca mais fomos os mesmos, graças aos baianos desencaretamos, botamos o pé no século vinte e suas novidades tecnológicas: da indústria da cultura de massa à contra-cultura, do American way of Life ao movimento hippie, da bossa nova ao rock and roll, das ditaduras de ambos os lados ao desbunde inevitável, do nacionalismo tacanha que demarca fronteiras  à antropofagia cultural, é só ver os últimos festivais pós-tropicalismo, alguma coisa estava fora da ordem e para a nossa sorte assim ficou.

Indagado sobre a aparente vida curta do tropicalismo sob ataque da ditadura Caetano argumentou que talvez fosse o fim dos movimentos mesmo, que talvez essa era teria findado na geleia geral tropicalista. Sou fãzaço do artista Caetano mas me lembrei daquela tese idiota do Hegel retomada pelo Fukuyama quando da queda do muro de Berlim, essa teoria sustentava, como o nome sugere, o fim dos processos históricos caracterizados como processos de mudança. Para Hegel isso iria acontecer no momento em que a humanidade atingisse o equilíbrio, representado, de acordo com ele, pela ascensão do liberalismo  e da igualdade jurídica. Vejam vocês o tamanho da patacoada que enriqueceu o japa-americano.

O liberalismo está destruindo o planeta e a igualdade jurídica nunca foi tão desigual e golpista, no mundo todo virou braço armado do capital financeiro, portanto sempre que se decreta o fim de algo falta uma combinação com o imponderável da história, como dizia Jacques Leggof “a história vaza pelo ralo”. Logo após o Tropicalismo o”último dos movimentos” apareceu um troço chamado Clube da Esquina que apesar de não se autoproclamar como movimento manifesto foi sim um grande movimento criativo da música brasileira pós-AI5, no final da década de 70 surgiram os nordestinos na MPB, na década de 80 o Rock brasuca ressurge de maneira articulada e toma conta de tudo.

No novo século o grande Miguel Wisnik, sendo o homem erudito que é, lança uma oficina com o título provocativo “O Fim da canção”. Foi uma provocação e não uma opinião, nem todo mundo entendeu, ele queria contrapor a canção à modernidade tecnológica e antimusical que vivemos agora.

Não, a canção não terá fim, mudará de lugar talvez, talvez já tenha mudado, o liberalismo de Hegel e Fukuyama não findou a história e nem trouxe equilíbrio nenhum a sociedade humana, ao contrário, acentuou suas desigualdades e conflitos enquanto depedrou e depedra  os recursos naturais do planeta, o liberalismo e o comando das sociedades via bolsa de valores bem que tentou mas não acabou com a canção, apenas a expulsou da industria de entretenimento, li um idiota falando hoje que a música mudou porque as demandas de mercado mudaram, ora seu Mané o que mudou foi o poder do mercado sobre as sociedades e não as demandas, demanda de mercado é lucro e não música, continua sendo lucro e não música, o que mudou criatura iluminada?

Estamos nos reinventando para não sermos extinguidos, sem gravadora, empresário, produtor, mercado para escoar nossa produção estamos aprendendo a sobreviver fora do mercado fonográfico, das mídias tradicionais como o rádio e a TV. Uma infinidade de saraus mantem a nova canção  viva por aí, são inúmeros pela cidade, uma epidemia, é isso ae, meninos eu vi.

Não tenho a menor dúvida que a revolução em termos de produção artística virá dos guetos e das redes e plataformas digitais, daqueles que souberem se organizar, criar um mercado alternativo fora das mídias oficiais, Elis Regina profetizou isso no início da década de 80 – o fazer por fora, temos que transformar nossos pequenos espetáculos em algo que dê sustento para os artistas que os produzem, criar uma tradição de pagar esses shows e saraus atualmente quase gratuitos, fomentar a criação do público interessado nisso, trabalhar nessa difusão, enfim, fechando com a negativa a Caetano, não é o fim da história, da canção e dos movimentos, façamos o “Movimento dos sem Movimentos”, movimente-se você com o seu grupo, a sociedade alternativa dessa porra toda, vamos lá, movimente-se apenas. Faça como o Rica Soares fez aqui, crie seu espaço e se movimente.

Teju Franco 16/01/2018