Fala, Poeta! Cesar Veneziani entrevistado por Vlado Lima

Cinco questões para o poeta autor dos livros “Asas” (Utopia Editora, 2009), “Neblina” (Editora Patuá, 2012), “Versos avulsos e outras valsas”) e “Dicioneto Mitopoético – de Afrodite a Zeus” (MorningStar Books, 2018).

1. Poesia: porque?

A poesia me parece ser a forma de arte mais próxima de minha necessidade de expressão, devido à concisão (que permite dizer muito em pouco “espaço”) e também à liberdade de formas, estilos e sonoridades que possibilita. Juro que tentei a música (só consegui tocar campainha, ainda assim desafinado), desenho e pintura (não passei daquela casinha com cerca e chaminé). Talvez um dia ainda tente prosa, mas estou satisfeito com a poesia.

Áudio do poema “Vida fácil” do livro “Neblina” (Editora Patuá, 2012, p 124 – 127)

2. Como é ser poeta num país sem cultura e sem leitores?

Muito difícil! A gente faz mais por teimosia mesmo. No entanto, como não dá pra ficar reclamando sem fazer nada, o negócio é apresentar o trabalho, buscar alternativas de divulgação e não desanimar. Leitores são poucos? Num país com a população que temos leitores são um número muito pequeno, mas eles existem e estão cada vez mais ávidos por possibilidades de boa leitura. O fenômeno das pequenas editoras que viraram um grande sucesso está aí para confirmar isso!

Sixties

E, quem diria, enfim eu fiz sessenta!
Ao todo cinco dúzias, quatro arrobas.
Agora completei já seis dezenas,
Com muitas alegrias, dores poucas!

Adiante, aposentado, é só poema
Que quero para os dias que me sobram
Quem sabe a alma assim se faça plena
Pro fim que pode vir a qualquer hora.

O corpo às vezes sente algum problema
Mas a razão ativa é pura e há pouca
(Eu juro, falo sério!) diferença

De quando era moleque, a vida à toda,
Do homem que hoje tem vida serena
Que vê os dias como as praias ondas…

3. Cite um poeta que influenciou sua poesia.

Meu poeta de cabeceira é Guilherme de Almeida. Ele foi eleito por voto popular numa enquete de um jornal carioca como “O Príncipe dos Poetas Brasileiros” numa época em que Manuel Bandeira, Drummond, Vinícios de Morais, João Cabral e tantos outros estavam em plena produção poética. Ele dominava a técnica como ninguém e tinha uma sensibilidade que não consegui encontrar em nenhum outro poeta. Pena que tenha sido esquecido até pelos poetas contemporâneos…

Velho Portão

Soldado e trincheira,
à beira do confronto,
sempre pronto,
é ponto na fronteira
entre o alvo
(do bandido)
e o salvo
(do protegido).

Desprezado,
sem tinta nem teto,
desfaz-se, apodrece,
mas permanece fiel
em guarda e no aguardo
de que alguém
com ou sem má fé
meta o pé
ou então
vento forte o leve ao chão…

4. O que você acha da cena de saraus da cidade de São Paulo?

Há uns 5 anos atrás houve um certo “boom” de saraus pela cidade. Eram muitos e espalhados, algo como as “tribos” se juntando em busca de uma identidade. Isso acabou de certa forma dispersando o potencial dos autores em vez de formar novos polos de aglutição de forças. Hoje restaram apenas uns poucos, como o “Sopa de Letrinhas”, que são tradicionais e vieram antes da “moda sarau” e não sofreram a crise de identidade dos demais. O fato de serem poucos de certa forma retrata o que já foi dito acima, ou seja, há uma pequena procura por arte em geral nesses tempos de cultura tratada como algo supérfluo. Mas há público sim, e também gente que continua a fazer arte, independente das dificuldades, tanto as de sempre como as que surgem. Nesses poucos saraus que restaram, no entanto, encontramos uma diversidade criativa que é extremamente estimulante e necessária, garantindo um futuro rico.

5. O verso perfeito…

“A todas vocês, que eu amei e que eu amo, ícones guardados num coração-caverna, como quem num banquete ergue a taça e celebra, repleto de versos levanto meu crânio.” Este é a primeira estrofe do prólogo do poema “A Flauta Vértebra” de Maiakóvski na tradução de Haroldo de Campos e Boris Schneiderman. São os versos que eu gostaria de ter escrito. Há, no entanto, um verso que considero perfeito: “Simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti.” do mestre Cartola. (Letra de música também pode ser poesia!)

Leitor

leio tudo
(do livro?)
capa
contra-capa
orelhas
miolo

devoro
(da carne?)
versos/linhas
estrofes/parágrafos
incito travessões
respingo esperma em reticências
e faço do urro/gozo
ponto final

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