Juli Manzi e os 20 Anos de um Clássico Enigmático do Pop Gaúcho

O álbum 340 Exigências de Camarim marcou a estreia do compositor Juli Manzi em abril de 1999, há exatos 20 anos. Produzido por Gustavo Dreher e Gustavo Steffens, contou com a participação de 35 músicos, entre eles integrantes das bandas gaúchas DeFalla, Graforréia Xilarmônica, Ultramen, Engenheiros do Hawaii, entre outras. Recebeu o Troféu Açorianos de Música (SMC-POA), na categoria Revelação. Foi considerado pelo jornal Zero Hora “a melhor estreia fonográfica de um artista gaúcho nos últimos anos”, e pela Folha de São Paulo “um bafejo de inteligência e diversidade característicos do subsolo musical”. O compositor, que na época tinha 22 anos, foi saudado pela revista ShowBizz como “um fazedor de canção dos bons”.

Para comemorar os 20 anos de lançamento, serão realizados dois shows: dia 13/04 na Sensorial Discos, em São Paulo, e dia 27/04 no Gravador Pub, em Porto Alegre. O show de Porto Alegre contará com boa parte do elenco original dos músicos do disco.

A seguir, o autor comenta todas as faixas do 340 Exigências de Camarim.

Ouça no YouTube a íntegr do álbum de estreia de Juli Manzi, 340 Exigências de Camarim, de 1999.

1) O INDIVÍDUO MEGALOMANÍACO

Música autobiográfica que fala de uma parte reclusa e um pouco antissocial da minha personalidade. Aliás, tenho sério receio de que essa parte prevaleça, como dizia Ataulfo Alves, “quanto mais conheço o homem, mais eu gosto do meu cão”. Em contrapartida, essa música tem também um lado utópico, porque fala de transformar “sonho e pensamento em solução”. O título veio posteriormente, a partir de uma análise que eu fiz da letra. É um pouco tiração de onda, aliás, muitos títulos desse disco tem isso, o que mostra a incapacidade de intitular que eu tinha na época. Depois, graças a deus, consegui superar isso e até comecei a criar uns títulos razoáveis. Defendi essa canção no I Festival de Música de Porto Alegre, em 1999, ao lado da banda Os Heterogêneos. No meio da apresentação, no auditório Araújo Vianna, eu falei: “É, Raul Pont, nós transformamos sonho e pensamento em solução”, e ele, que era prefeito e tava sentado bem na minha frente, ficou só me olhando. Desconfio que eu não fui finalista do festival por causa disso.

2) O NÚMERO DE BROWN

Eu estudava jornalismo na Ufrgs e tinha um colega chamado Inácio Brown. Foi a primeira pessoa que eu conheci que tinha um notebook, que, na época, chamávamos de laptop, e ele levava para a aula para fazer suas anotações. Uma vez, nós estávamos fazendo um trabalho em grupo e eu precisava ligar para ele para perguntar alguns detalhes. Eu tinha as fichas, o orelhão, mas não tinha o número do Brown. Minha agenda era algumas folhas e guardanapos avulsos com nomes e telefones de amigos que eu levava nos bolsos. Comecei a mexer nesses papéis todos procurando quem poderia ter o número de Brown. À medida que perseguia os guardanapos pelos bolsos, começou a surgir a canção, um funk que fala de “laptop by Paraguai” e “winchesternaprimeira geração”, na época que ainda se chamava HD de winchester.

3) MUITA POPULAÇÃO/POUCO ESPAÇO

Essa letra tem um quê de autoajuda que soa um pouco ingênuo, mas propõe reflexões sobre o tempo e sobre a urbanização excessiva que até cabem ser consideradas. Os produtores propuseram fazer o arranjo numa onda meio Steve Wonder, mas confesso que estou até hoje procurando por isso. Na abertura, sons da Avenida Salgado Filho, no centro de Porto Alegre. Essa música é uma das parcerias com o meu grande amigo Gustavo Steffens nesse disco. Além de fazer a harmonia, que é muito criativa e meio esquizofrênica, ele também gravou o baixo, que é muito foda! Se eu fosse indicar um parceiro principal nesse disco, seria o Steffens, sempre admirei muito a musicalidade dele, desde quando éramos colegas na escola.

4) GORILLA CAGE

Eu tava lendo Ezra Pound para fazer a minha monografia de conclusão de curso, que envolvia Arnaldo Antunes, poesia concreta e multimídia. O Steffens já tinha me passado a harmonia dessa música, que eu achava muito boa. Um dia eu estava com o Jorge Morgan foleando os Cantos do Pound, um exemplar emprestado que pertencia à mãe do Guilherme Oliveira, e começamos a criar versos em cima da harmonia. Num primeiro momento, eu nem percebi que ele estava copiando os versos do próprio livro. A canção acabou retratando a velhice do Pound, até ser preso numa jaula de gorila durante a invasão aliada, na Segunda Guerra Mundial.

5) INSÔNIA

Essa música foi criada em três momentos diferentes. O refrão “só as árvores são naturais, o resto é tudo fruto da mente do homem” fala do Parque da Redenção, uma reserva natural vizinha ao centro de Porto Alegre. As estrofes eu compus em outro momento, tentando vincula-las ao refrão. O poema lido pelo Daniel Leão eu tinha feito na época e decidi juntar ao restante. Esse arranjo, assim como o da música Procissão, foram definidos pelo Gustavo Dreher. Destaque para o órgão de Frank Jorge, no melhor estilo jovem guarda.

6) CULTURA POPULAR
Uma professora da faculdade pediu a leitura de um texto muito interessante que falava de pulsões e catarses, devia ser de Psico, não lembro. Mas as ideias eram muito boas. Pensei nas relações disso com a canção e a cultura popular, o percurso completo, dos sentimentos às produções finais e sua difusão na cultura de massa.

7) PROCISSÃO

Essa é sobre concorrência no capitalismo. O primeiro verso já pergunta: “todos prontos pra competição?” Fala de afiar as garras no sacrifício do centro e de outros rituais da rotina no mercado de trabalho. Um dia, um cara veio me contar que colocou essa música na formatura dele em Administração na PUC. Eu achei genial. Cabe ressaltar também o solo massa do saudoso Zé do Trompete.

8) BACHELARD E SEUS AMIGOS

Um professor de jornalismo muito marcante da nossa época foi o Ungaretti. Ela fazia provocações e nos apresentava autores malucos com ideias excêntricas. Escreveu uma vez na lousa uma frase do Gaston Bachelard: “nada é fixo para aquele que alternadamente pensa e sonha”. Eu achei isso fantástico, imediatamente minha cabeça começou a funcionar e saiu essa canção. Lembro bem do dia que gravamos as percussões dessa música e de Cultura Popular, o Dreher recém tinha chegado do RJ e havia acompanhado uma sessão de gravação do Pedro Luís & A Parede. Copiou o tipo de abafamento que eles utilizavam para a gravação dos nossos bumbos e o resultado ficou ótimo.

9) QUERENDO CHORAR

O Guilherme Oliveira me convidou para dividir com ele uma atividade que havia recebido para uma disciplina do curso de Música da Ufrgs: criar uma versão para um compositor do cancioneiro popular, e ele escolheu Teixeirinha. A primeira apresentação que fizemos foi em sala de aula, com boa receptividade. Em seguida, a música era bem recebida também nos shows, por isso resolvi gravar. Na gravação participou Ivone Pacheco, grande diva octogenária do jazz porto-alegrense, que tocou concertina francesa. Eu toquei um baixo improvisado com timbre meio podre para servir de guia para o baterista e, no fim, os produtores resolveram usar.

10) MÚSICA PARA A PSICOTERAPEUTA

Eu sofria de uma razoável depressão e um pouco de pânico, por isso fui procurar ajuda no departamento de Psicologia da Ufrgs. Um professor me indicou uma ex-aluna recém-formada que era simplesmente linda. Eu chorava as pitangas e ela não dizia absolutamente nada, ficava só me olhando e, no final da sessão, sempre falava: “é, Giuliano, é do limão que se faz a limonada”. Foi minha única experiência com tratamento, durou menos de um mês e resultou nessa canção inusitada, que depois também foi muito bem gravada num disco da cantora Adriana Deffenti.

11) CAPITULA

Uma vez, me apaixonei por uma garota de origem grega chamada Tula, que também amava outro cara, e isso foi um rolo desgraçado. Após poucos meses, resolvemos acabar o relacionamento e, com o coração em frangalhos, fiz essa canção para desabafar e me consolar um pouco.

12) TEMA PARA UM ROMANCE CABALÍSTICO

Eu, o Jorge Morgan e o Tulio Pinto musicamos esse lindo poema de Fábio Dallas, originalmente intitulado “Para o meu amor, Dani”. Como falava em cinco incensos e sete portais, a Adriana, minha namorada na época, sugeriu a mudança de título. O Dallas era uma figuraça, poeta vagante da madrugada que abordava todo mundo por um copo e uma conversa.

13) ATLANTIS

Havia na faculdade uma guria muito interessante e maluca chamada Bianca. Ela me contou uma lenda que dizia que os moradores de Atlântida construíram um imã tão potente que mudou o eixo da terra. Fiquei impressionado com a história, como é que eu nunca tinha ouvido falar disso? Fiz a música que fala um pouco de mim, um pouco da Bianca e das transformações que a gente tava passando na época.

13) ATLANTIS

Havia na faculdade uma guria muito interessante e maluca chamada Bianca. Ela me contou uma lenda que dizia que os moradores de Atlântida construíram um imã tão potente que mudou o eixo da terra. Fiquei impressionado com a história, como é que eu nunca tinha ouvido falar disso? Fiz a música que fala um pouco de mim, um pouco da Bianca e das transformações que a gente tava passando na época.

14) CONSTANTE DEFORMAÇÃO

O Jorge Morgan e a Denise Medina passaram no meu apê num sábado à tarde, ficamos batendo papo e acabamos fazendo essa canção. Tem uma mensagem otimista, de tentar levar a vida com o pensamento positivo. A Denise tinha má formação e isso tinha impedido o crescimento físico dela, além de outros resultados. Mas você começava a conversar com ela olhando nos olhos e esquecia completamente dessa diferença que ela tinha. Uma pessoa muito viva e ativa, que adorava fazer a cabeça. A gente sabia que ela não ia durar muito, coitada, até que, há uns anos atrás, fiquei sabendo que ela partiu.

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