Nos Trilhos com Marília Calderón

Somos todos Marília. Sua criatividade, suas inseguranças, seu amor à arte, sua visão de mundo, que parece já não ser a mesma de pouco tempo atrás e promete já ser outra daqui a pouco, e seu empenho em espalhar versos e acordes pelas ruas e vagões da metrópole. Nesta entrevista ela conta pra gente de vivências, influências, projetos. Fala de arte, de política, de amor. E do lançamento de seu single, “À deriva”, nas plataformas digitais tipo agora. Role a tela, leia a moça, ouça a moça.



Fotos: Bruno de Souza


Calderón é seu sobrenome real? Vamos falar de herança cultural e musical. Existe alguma tradição musical na família? Como a música aconteceu na sua vida?

Calderón é um sobrenome de origem espanhola, proveniente de comunidades judaicas, que herdei de minha mãe. A principal herança cultural de minha família foi o choque entre classes. A família do meu pai, rica e tradicional, e da minha mãe, pobre e desregrada. As duas famílias nunca dialogaram muito e creio que daí tenha surgido uma divisão que é muito presente em minha vida, do corte de cabelo aos temas de minhas músicas. Minha utopia é a de que essa divisão seja um dia superada. Sobre a herança musical, foi principalmente a canção popular que se instalou dentro do meu coração, e parte da culpa é de meu pai, que durante minha infância tocava violão e, como eu dizia à época, “cantava melhor que o cantor” (Chico Buarque). Essa é a tradição boa. A ruím, contra a qual precisei me rebelar, é formada pela crença de que “arte não é trabalho”. Arte é trabalho e nada me dá mais trabalho na vida do que viver de arte (licença, trocadilho rs).

Depois a criança cresce e começa a ouvir outras coisas, diferentes do que ouvia em casa. Como vieram essas novas influências? Discos? Rádio?

Minhas principais influências musicais vieram da música ao vivo: de Paúba, prainha de pescador que foi minha segunda casa durante a adolescência; da faculdade de Ciências Sociais, em que passava mais tempo no “bosque” (reduto dos maconheiros violeiros) do que nas aulas, e do Teatro. No Teatro, me encantei principalmente com os palhaços e quando, uma vez no festival Psicodália, saindo da minha barraca, me deparei com um toquinho de ser humano de nariz caminhando e tocando acordeon e, no refeitório, o vi passando o chapéu, fiquei maravilhada (o palhaço era Mauro Bruzza). Aquilo me tocou muito e mais tarde viria a tocar acordeon – como ele, não mais que três acordes – e passar o chapéu também. Os discos foram importantes para alimentar os vícios e poder ouvir infinitas vezes as canções sem as quais passei a ter síndrome de abstinência, mas os arrebatamentos fatais no geral foram ao vivo.

Como foi sua aproximação com os instrumentos e qual a importância da técnica musical pra você?
Minha aproximação com os instrumentos é muito passional. Muitas vezes sinto um desejo incontrolável de tocar e largo tudo pra poder estudar um instrumento, mas muitas vezes também escondo meus instrumentos no armário e abandono o estudo, pelo excesso de auto ou alter-crítica. Alguns músicos que tocaram comigo me aconselharam, sutilmente ou não, a “só cantar” ou “só compor”, o que compreendo, afinal, tenho consciência de meus limites como instrumentista e cantora. Mas sei também que esses limites não serão superados enquanto eu não me livrar de tantos controles internalizados e não seguir meus próprios desejos, por isso não só tenho composto, como também tocado e cantado, muito obrigada. Para mim a importância da técnica musical está em melhorar a qualidade da comunicação: é o “como”, para além do “o quê”. Gosto muito de quando “como” e “o que” dialogam, mais do que de “supercomos”, que tendem para o exibicionismo. Às vezes um acorde é mais eficiente para transmitir uma mensagem do que 200. Às vezes é o contrário. Creio que o importante seja comunicar bem o que se deseja.

A escolha pela arte como profissão como foi? Em algum momento você considerou outro rumo profissional ?

No período do ritual de “se escolher uma profissão” percebi que queria ser artista e escolhi estudar cinema. De lá pra cá, passei por mil cursos e percursos diferentes, me formei em Ciências Sociais e Teatro, e tenho trabalhado como atriz, contadora de histórias, brincante, compositora, cantora e artista de rua. Não havia na minha época, como ainda não há, uma faculdade de “canção”, e intuí que as Ciências Sociais e o Teatro me aproximavam mais desse universo multidisciplinar do que as faculdades de música, normalmente muito elitizadas e voltadas para a música erudita ou para o jazz. Durante a faculdade, escrevia muitas poesias, que uma hora começaram a vir com melodia, e o amigo Márcio Lázaro, que me achava parecida com a Nara Leão, me convidou para representá-la num projeto musical em homenagem à Era dos Festivais, que se chamava “Outras Noites”. Daí vi que eu gostava da coisa e tô até hoje nesse rolê, não sem muitas dificuldades. Hoje já existe no Brasil uma pós graduação em Canção, criada por Sérgio Molina, e pretendo cursá-la em algum momento, se rolar dinheiro pra isso. Eu vivo considerando outros rumos profissionais, porque de fato não é nada fácil viver de música por aqui, ainda mais tendo uma trajetória tardia e torta como a minha. Mas já percebi que desistir da música, no meu caso, não passa de procrastinação, pois quando vejo já estou nela de novo. Da última vez que desisti, tranquei meu acordeon no armário e entrei num mestrado em Antropologia na USP, tentando dar uma lógica à minha trejetória. No primeiro dia de aula, tirei meu acordeon do armário, comecei a chorar, voltei a tocar no metrô e abandonei o mestrado. Quanto mais luto contra meu desejo, menos consigo dominá-lo. Nem tudo a gente escolhe.


Foto: Bruno de Souza

Suas canções são ricas em imagens. Que obras de cinema e literatura (ou outros formatos) você considera importantes na tua formação como criadora?
As obras mais importantes pra mim nos últimos anos foram as de Maria Rita Kehl, poeta e psicanalista, e de Walter Garcia, compositor e escritor. Estes dois pensadores/artistas são muito especiais pra mim por ter tido com eles uma relação real e afetiva, além da de apaixonada por seus trabalhos. As aulas, livros e parceria musical do Walter e os livros, palestras e análise da Maria Rita mudaram muito os rumos da minha vida. E alguns dos artistas e pensadores que admiro muito, com os quais não tive ou tenho proximidade real, são (sem seguir nenhuma lógica, tá?): Charles Chaplin, Georgette Fadel, Nara Leão, Brecht, Mano Brown, Juçara Marçal, Elza Soares, Helena Ignez, Luiz Tatit, Itamar Assumpção, Gregório Duvivier, Chico Buarque, Giulieta Masina, Pedro Almodóvar, Rubem Braga, Drummond, Machado de Assis, Hilda Hilst, Luis Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Simone de Beauvoir, Laerte, Nise da Silveira, …e alguns dos que estão entrando na listinha agora são Geovani Martins, Maria Beraldo, Guilherme Boulos e Djamila Ribeiro.

Sobre o Teko Porã, como foi? Qual a importância na tua história?
Foi uma dehlécia. Do Teko Porã e da Casa Barco, guardo talvez as lembranças mais poéticas da minha vida: o Oceano Pacífico (nosso gato), as cartas engarrafadas que trocava com Juan, os nomes fictícios escolhidos carinhosamente para cada integrante, os nomadismos musicais pelas ruas e metrôs de Sampa, as ocupações que deram origem ao Coletivo Caravana de Bandas de Rua, as reuniões políticas, o produtor gênio-louco que adotamos, com quem compus, após fortes emoções, minhas canções preferidas, os debates infinitos sobre como coordenar casa, amor e banda, os experimentos terapêuticos…a experiência comunitária que vivi ali foi muito rica e sou eternamente grata a isso. Uma hora senti que essa experiência havia se esgotado e estava cada um por si. Aos poucos fui assumindo que estava sozinha: saí da Casa Barco, do namoro e, depois, da banda. Rolaram muitas tretas, questões éticas e mágoas que não cabem nessa entrevista, mas quanto mais o tempo passa, mais me parece que nossas desavenças eram e são pequenas perto da imensa treta política brasileira que, sem que tivéssemos consciência, certamente nos afetou. Hoje o Teko Porã é outra banda, da qual só guarda daquela o nome, o integrante Pablo e algumas músicas, e desejo à nova banda que saiba superar as questões éticas e cultivar o espírito comunitário e democrático que um dia vivi ali.

Daí teve o Na Cachola. Qual era a proposta ali?
O Na Cachola na verdade surgiu antes da minha época no Teko Porã, e seguiu até um pouco depois. Começou com uma disciplina da USP chamada “Formas da canção brasileira”, oferecida por Walter Garcia, de quem falei acima. Entrei na aula dele por engano e fiquei por uns dois anos as frequentando. Eu e outros puxa-sacos propusemos a ele um grupo de estudos, que depois acabou virando um grupo de composição, que depois acabou virando o Na cachola. São canções sobretudo do Walter, com muitas parcerias, comigo inclusive, fruto de muitos anos de pesquisa e prática dele com a canção brasileira, o teatro e o marxismo. Material denso e de qualidade, não recomendado para churrascos e happy hours.

E tem os trens, as ruas. Músicos de ruas sempre fizeram parte da paisagem urbana paulistana, mas de um tempo pra cá – assim como os blocos de Carnaval – a coisa ganhou um pouco de status de cartão de visita paulistano. Como é isto? É um bico, um reflexo de alguma situação social ou é vocação, uma arte que pode ser refinada e ter seu status reconhecido?

São as três coisas. Tocar no metrô não é exatamente um bico pra mim, mas minha principal fonte de renda nos últimos anos; é também reflexo de uma situação social, porque o artista, no Brasil, está perdendo o pouco que havia conquistado de direitos e espaços nas últimas décadas e precisando cada vez mais se adaptar a condições precárias de trabalho, inclusive burlando regulamentos retrógrados, como o que proíbe a música no metrô; e é também uma arte que pode ser refinada e ter seu status reconhecido, pois tem potencialidades específicas, como a de questionar as fronteiras entre artista e público e estabelecer com a plateia uma relação direta e horizontal, sem intermediários, o que garante maior liberdade e autonomia para ambas as partes da relação. O que não acho legal é usar o trabalho do artista de rua como cartão de visita paulistano sem valorizá-lo de fato, como está fazendo o edital SP Cultura no Metrô, parceria do metrô com a Secretaria Estadual de Cultura, que paga 150 reais por banda/artista por apresentação, menos do que o artista de rua ganha por conta própria sem fazer publicidade para nenhum órgão do governo. Ao mesmo tempo, o metrô passou a pagar 49.000 por mês (ou 39.000, há controvérsias) pelo setlist de música mecânica tocada agora nos vagões para a Icult, ONG fantasma cujo superintendente é conselheiro na Secretaria Estadual da Cultura (segundo matéria da revista Fórum). Como integrante do MAR (Movimento Artistas de Rua) tive a oportunidade de participar recentemente de uma reunião na SEC com a CPTM para falar de um projeto que querem realizar com artistas de rua. Tomara que esse dê certo também para os artistas!


Foto: Bruno de Souza

Você está criando e gravando coisas novas, tem um single seu sendo lançado por estes dias (falemos sobre ele numa próxima pergunta). Como você vê sua relação com a música hoje, depois daquelas experiências? Você mesma está bancando esta produção, o que leva a crer que tem muito amor à arte envolvido.

Minha relação com a música hoje está mais preocupada em ser profissional. Continua tendo muito amor sim, mas com a consciência de que não é só isso o que está em jogo. No Teko Porã, como era tudo só amor, tudo o que eu compunha era “nosso”, mas depois que saí, convidada a me retirar pelo “capitão” da banda para dar lugar a uma cantora mais competente, além de sua namorada, e vi minhas canções publicadas como “da banda”, sem créditos nem nada à minha pessoa (mesmo eu pedindo inúmeras vezes para que fossem dados), me dei conta de que tinha outras coisas para levar em conta além do amor, que às vezes até acaba. Tinha direitos que estavam sendo lesados. Não tenho mais mágoas dos teko (na verdade, como disse acima, da minha época só o capitão ficou) porque sei que não tinham consciência do quanto estavam me lesando, sei que todos estamos sujeitos a erros e podemos aprender com eles. Mas tenho pensado muito sobre isso para que eu não reproduza esses erros com as pessoas com as quais trabalho agora, o que confesso já ter feito um pouco. Por exemplo, o “à deriva” foi feito com quase nenhum planejamento e orçamento, muito nesse clima de banda, à base da parceria e amizade, e as parceiros mais chegados, alguns dos quais até moram comigo, gravaram totalmente na camaradagem. É muito bom trabalhar com pessoas queridas, mas de lá pra cá (gravamos no ano passado) me dei conta de quem não é justo pagar a uns e não a outros e não é justo não pagar a qualquer pessoa se o trampo é meu. Preciso e vou pagar a todos e estou me planejando para captar recursos.

Como tem sido isto de produzir solo independente?
Eu resisti muito a colocar energia num trabalho solo por imaginar que isso me tornaria uma pessoa mais individualista e distante da busca de um “bem comum”, que tanto faz a vida fazer sentido. Mas como disse Nise da Silveira citando Artaud, “há 10.000 modos de pertencer à vida e lutar por uma época”. No trabalho solo, como são um pouco menos frequentes os debates infinitos sobre como levar adiante o trabalho, já que tenho maior autonomia sobre isso, tenho tido um pouco mais de tempo para estudar e tentar compreender o que está acontecendo no mundo para além dos meu círculos já familiares. Acho perigoso, em qualquer trampo, solo ou não, que a preocupação com a própria carreira ou a do grupo ao qual pertencemos passe à frente da preocupação com o que de fato ela tem a oferecer para os outros. É minha maior preocupação em relação ao trampo solo que tô começando. Que realmente ofereça algo e não apenas busque seguidores e renda, ainda que uma coisa não exclua a outra necessariamente. De todo modo, “solo” é sempre uma palavra fictícia, porque não fazemos nada sozinhos, e tenho a sorte de estar iniciando essa empreitada com parceiros muito topzera, como o Paulinho Tó (que tá fazendo a produção musical do meu álbum), o Luan Cardoso (que fez o clipe de “à deriva”) e os músicos/musicistas Kbça, Ayô, Paula Duarte, Maria Fernanda, Marta Najjar, Sander Mecca, Octávio Amado, Chicão, e o Flávio Tomás, que fez a arte do single pras plataformas. Gratidão eterna a todos. A produção independente tem a vantagem de, como a música de rua, se dar ao luxo de uma maior liberdade e autonomia artística, e a desvantagem de ter que fazer, por falta de grana, vários corres muito loucos pra sobreviver. Ao menos no caso de quem não tem patrocínio ou dinheiro entrando por outros meios que não o da própria arte independente.

Virando a chave um pouquinho pra questão de gênero, como estamos e para onde vamos?
Tenho a impressão de que a questão de gênero está avançando a passos largos. A OMS ter retirado a transsexualidade da categoria de distúrbios mentais, o papa ter dito “Deus te fez assim e te ama” a homem gay e a repercussão ao vídeo machista feito na copa, apesar de episódios recentes que mais parecem situar-se na Idade Média, revelam que a transfobia, a homofobia e o machismo, todos parentes, estão finalmente perdendo o apoio geral das nações. Por outro lado, são assustadoras as ondas conservadoras que se formam em reação a esses avanços, e é impossível prever para onde vamos, pois a história não segue jamais uma linha unidirecional e sim pode ir para qualquer lado. É preciso trabalhar muito pela direção que queremos, porque não há Deus nem milagre.

Existe espaço para um ativismo feminista mais direto na música brasileira, algo mais parecido com o que o grupo Guerilla Girls faz nas artes plásticas?
Na música brasileira já há muitos coletivos e artistas mandando um papo bem reto nesse sentido, o que muito admiro e me inspira. Alguns exemplos são o projeto Sêla, o festival Sonora, a banda Mulamba, o grupo Odisseia das Flores, as artistas Maria Beraldo, Luedji Luna, Aíla e muitas outras. Graças à dElza.

Por fim, Rica, quero agradecer à sua paciência frente à absurda enrolação da minha parte para responder a essa entrevistona e às boas perguntas. Muito obrigadíssima!

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