O que vem por aí, Teju Franco?

Teju Franco foi revelado ao público como Edu Franco no Festiva da Cultura de 2005, quando foi à final com sua canção Seresteiro a Perigo. Quando ficamos sabendo que o artista estava em estúdio preparando um novo single, pegamos o whatsapp e perguntamos: o que vem por aí, Teju Franco?

1. Você por estes dias está gravando um single repleto de participações. Conta dele aí pra gente.

A canção já nasceu com essa ideia, é um chamamento, um canto de guerra, de resistência, um manifesto. Ela nasceu com essa aspiração de campanha humanitária, mais especificamente da campanha “Lula Livre”. A princípio não achava que pudesse agregar tantas pessoas, mas às vezes as coisas tem um próprio caminho que independe do que achamos, ouvi uma frase bárbara do Benjamim Taubkin essa semana “a grande ideia já vem com potencial realizador”, e assim se deu, a canção saltou à minha frente abrindo portas, chamando gente, e que “gentes! Esse samba meio em formato de enredo, mas com uma melodia recortada e uma extensão difícil de percorrer já chegou movendo vontades e mentes, o Léo Nogueira, um dos letristas mais brilhantes a atuantes da MPB pós-sessenta foi o primeiro a manifestar o impacto, ele disse – é o “Bêbado e a Equilibrista” da nossa geração, eu fiquei feliz, mas não levei a sério, tava naquela vertigem pós-criação, mas o samba continuou seu destino dando pouca bola pra mim e para o que achavam de mim, algumas canções tem vida própria fora do autor. 

Dentro de mim veio aumentando a vontade de juntar várias pessoas como nessas grandes produções humanistas tipo “We are the World”, uma gravação coletiva pela campanha “Lula Livre”, para tirarmos Lula dessa prisão absurda a que está submetido sem motivo algum a não ser desafiar a nossa tradição escravagista, criar uma sociedade de oportunidades, civilizada. Lula está preso pelo que fez de bom, os malfeitos ainda não conseguiram demonstrar um sequer.

Não sei se a somatória de todos esses horrores, de tanta mentira e manipulação grotesca da justiça, desse império do mal da extrema direita alçado ao poder em meio a uma onda neofascista de violências e fake news, se foi essa sombra sinistra, esse surto de gente bizarra parecida sair de algum lugar escuro e sombrio da nossa psique social, toda essa grosseria e perversidade das nossas elites e burguesias expostas com um tipo de orgulho às avessas, orgulho da ignorância,  incorporado nesse presidente deprimente e sua família mafiosa, tosca, mal educada, não sei se o desfecho patético da Lava Jato indo parar numa subsala do Escritório do Crime da favela do Rio das Pedras, se a sensação de impotência da sociedade frente a tantos desmontes, a inconformidade de alguns artistas inquietos frente à tanto absurdo, entreguismo, passividade, inação, paralisia, perplexidade, desesperança, dor no peito de ver uma homem como Lula nas mãos de pessoas do nível de Moro, Hardt, Lesbos e Dallagnol, dos verdadeiros corruptos que fizeram rios de dinheiro enquanto destruíam a economia e entregavam as riquezas do país aos EUA, não se o crime de Marielle vizinho a casa do presidente, se depois de tantos anos e investigações à família de Lula sem nada levantar, se deparar com esse laranjal a céu aberto da família Bozo e a passividade dessa classe média hipócrita que se fingia indignada, se é essa obsessão inacreditável dos bilionários do país em avançar em cima das aposentadorias de famílias que vivem com um salário mínimo, se foi esse bando de ignorantes chamados de bolsominions, promovendo escândalos diários e transformando a presidência do país na casa de Mãe Joana, enfim, acho que tudo isso junto e misturado me levou a compor a música, a querer mais pessoas que sentissem a mesma coisa que eu cantando junto comigo, uma maneira de não se sentir tão só, de sentir que estávamos rompendo a paralisia e fazendo algo, um lavar almas e não mãos, ao contrário, sensação de pôr a mão na massa da história, sair da queixa e passar a ação, e isso não se deu apenas comigo, afirmo isso pela reação das pessoas ao convite depois da audição. Foi algo que eu nunca tinha experimentado, as pessoas não apenas topavam, elas se colocavam imediatamente na canção, imperativamente na gravação e ainda demostravam uma gratidão linda de se ver, elas estavam me ajudando e dizendo muito obrigado.

São pessoas incríveis mesmo, fortes, colocadas, talentosíssimas. A princípio o samba seria publicado em voz e violão através de um amigo, o jornalista e parceiro em várias canções Gilvandro Filho, figuraça do Recife, jornalista, poeta, letrista, articulista, colunista eventual do site 247 e Jornalistas pela Democracia, meu parceiro em várias canções, poeta de fina e precisa língua lírica, ele iria fazer uma matéria sobre o samba e sobre mim, nesse entremeio foi me dando uma vontade imensa de produzir de verdade, com todos os sons que pedem um samba desse tipo, outro amigo aparece em cena: o Joca Freire, também parceiro, puta compositor de mão cheia,  e me fala do Clayton Santana, um produtor de samba caprichoso e refinado que tinha produzido umas coisas pra ele, a coisa assim, meio sem querer querendo, mudou de patamar, começou a produção e a partir disso pensei na primeira punção da música, vou chamar amigos pra cantar comigo, a princípio seria eu e meu clã mais próximo, Max Gonzaga, Márcio Policastro e Joca Freire, depois, falando com um dos jornalistas e também músico desse site 247, o grande Gustavo Conde, escutei falar que sentiu falta de vozes femininas, eu também sentia isso, fui pensar em quais mulheres me entrincheiraria nessa sanha, os nomes vieram fáceis, Marcia Cherubin,  Susie Mathias, Isabella Montagna, mais algumas que quiseram e não puderam participar por logística mesmo como a Titina Pereira. Susie é uma dessas figuraças da profissão, a pequena imensa interprete, com tantos anos de carreira vibra a cada aventura como uma jovem estreante, força da natura, rara figura, empatia total, aquela pessoa que você não consegue imaginar em outra profissão, e exatamente o mesmo que se diz da Marcia Cherubin, não tem outra profissão pra ela, parece uma entidade vinda de cima, de algum lugar mais evoluído, sempre vibrante, lírica, corajosa, combatente, que turma! Some Marcio Policastro e Max Gonzaga, dois dos maiores compositores que tenho a sorte de conviver o tempo todo, já falei tanto deles que é até marmelada falar, soma-se o incomparável compositor Kleber Albuquerque, sua disposição corajosa de abraçar algo que nem todo mundo com o nome dele  se atreve hoje em dia, some o canto gutural e poderoso de Sander Mecca, a força cênica da voz do Elio Camalle, os vocais incríveis dos meninos do Tarumã,  o esporro da natureza feminina da vida que é a Isabella Montagna e seu filtro multipolar, tudo isso virou um imã de pessoas bacanas que chegaram querendo fazer acontecer, veio Marcio Mecca, irmão do Sander oferecer para produzir o clipe coletivo, tudo na brodagem, na causa, e veio o Joel da CUT nos aproximou do sindicato do Metalúrgicos de são Bernardo onde faremos o clipe e também do movimento sindical, espaço que ambicionávamos nos aproximar desde a MPBU, se tem uma turma que pode tirar Lula das grades da injustiça é essa turma, falei e disse.

2. E essa promessa de um movimento musical engajado que reúne você, o Max Gonzaga, Marcio Policastro e outros ilustres autores da cena independente?

Isso nós já vínhamos ameaçando desde o coletivo da MPU (MPB Universitária), o qual você fez parte também. Uma patota de compositores e interpretes engajados na resistência ao golpe de estado que depôs Dilma Rousseff e a democracia do país, artistas que comparo a qualquer mestre da MPB dos anos sessenta. De determinada maneira estou trazendo e ampliando aquela ideia e, quando percebi isso, sugeri ao Gilvandro divulgar essa cena musical, que é real, existe, resiste, produz como ninguém nesse momento canções políticas pontuais a tudo que passamos nesses tempos. E ai se somaram ao grupo Fernando Cavallieri, Adolar Marin, Léo Nogueira, Rica Soares. A esquerda brasileira precisa conhecer essa gente, esse repertorio, precisa fazer uma revolução estética em si mesma, a autocritica da guerra cultural que não fez nos governos progressistas que levou educação mas não cultura, acesso a bens e não a consciência política que levou a esse acesso, o PT errou em não fazer a guerra cultural, e a reinvenção do futuro fatalmente deverá passar por isso, fazer o que faltou, travar a guerra da cultura, da comunicação, romper com o tradicional, criar a própria estética e não se virar com a do adversário..

3. Você é um cara meio raro, sem discos gravados. Onde a gente pode ouvir seus sons, enquanto aguarda o single e outras novidades?

Realmente, isso é fato, espero que não seja um destino, tem muita coisa no meu canal do youtube, nada de qualidade profissional de fato, pedaços de shows gravados por pessoas com telefones (adoro essas coisas), alguns clipes de registro com gravações caseiras. Agora que estou começando a trabalhar melhor com o software de gravação pretendo melhorar a qualidade desses áudios até que venham Cds, EPs e quem mais chegar com qualidade técnica. Vou dar uma reformulada no material do Youtube e disponibilizarei em breve.

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