Sobre o fabuloso show de Zé Rodrix com a Jazz Big Band no SESC Santos em 2008

Por Rica Soares

Em 2008 eu recebi uma ligação de Zé Rodrix: “- Gaúchinho, me manda uma gravação daquela sua música que eu falei que eu ia cantar um dia. Esse dia chegou e ela vai entrar no repertório deste show que eu vou fazer com a Jazz Big Band”. A música em questão era Fortaleza da Solidão, e eu lembro de um sentimento doce de sucesso, meio parecido com aquele de quando o Renato Ladeira me avisou que eu ia tocar com o Luiz Carlini no Festival da Globo. Do sucesso feito de pequenas doces experiências, mais do que qualquer tipo de superestrelato. Meus jogos de ego à parte, segue abaixo um relato do impacto que senti vendo aquele show de retorno de um grande ídolo aos palcos em altíssimo estilo e da alegria de poder estar ali do lado. O texto foi originalmente escrito e enviado para o grupo de emails do Clube Caiubi, no dia seguinte aos shows (e um pouco editado pra fins de clareza).

Em 2008, Zé Rodrix, Tavito e a Jazz Big Band interpretam "Casa no Campo" ao vivo em Santos

Dois grandes mestres da MPB lembram como foi criada a icônica canção que estourou na voz de Elis Regina, e depois fazem uma interpretação de arrepiar.Incentive o show homenagem do Clube ao mestre Zé Rodrix na galeria Olido: https://www.catarse.me/vixe_como_tem_ze_f138Leia artigo de Rica Soares sobre este show de 2008: https://clubecaiubi.com.br/sobre-o-fabuloso-show-de-ze-rodrix-com-a-jazz-big-band-no-sesc-santos-em-2008/

Posted by Clube Caiubi on Tuesday, April 23, 2019

Outro dia, quando Vlado Lima reclamava de um disco ruim, me dizia que a vida é muito curta pra se perder tempo com música ruim, literatura ruim, bla bla bla, o que é bem verdade, e cada vez mais verdade a cada dia que passa, já que a cada dia que passa ela fica mais curta mesmo. E isso eu ouvi dele bem antes de afundar na minha crise dos 40 e decidir dar um basta num monte de tralha que acabava ficando na minha volta por simples inércia. O pior inimigo de um é o próprio, definitivamente. Ok, filtro anti-porcaria ativado você acorda de manhã querendo olhar a vida diferente e procurando o lindo, o belo, o algo mais no meio de tanto joio desta imensa fazenda transgênica chamada “indústria cultural”. É fácil achar isso nos clássicos, sejam eles filmes, livros, discos. Pra falar a verdade, pode-se ser feliz pro resto da vida, independentemente da sua idade, consumindo apenas o crem de la crem da produção cultural do século passado, por exemplo. Aliás, possivelmente se precisaria dumas 200 vidas pra se conseguir consumir tudo aquilo. Mas o novo, ah o novo. Seja na forma de um sobrinho recém-nascido, do campeão de judô de dois anos de idade que mora na casa do Sonekka, ou de um grande novo amigo de 70 anos como o Afonsão, o novo é o que nos faz vivos. Ponha um novo atrás do outro e ganhe a ilusão da vida, como um quadro após o outro dá a ilusão de movimento no cinema. E ponha um BOM novo após o outro e a vida ganha a ilusão de filme bom!

          Foi com esse espírito, mas não com essa expectativa, que eu cheguei a Santos na sexta a noite pra assistir Zé Rodrix e a Jazz Big Band. Veja bem: minha relação com o Zé, de fã, depois amigo, depois parceiro passou por inúmeras fases ( e isso só já é um mérito, uma revolução em si ): do guri de treze que não aguentava mais aquele carinha de óculos e bigode cantando “Mas quando será? Quando será?” (Quando será que essa música vai parar de tocar?), ao hippie dos anos 80 (!) que cantarolava ao violão em Sapucaia do Sul a Primeira Canção da Estrada pra xavecar as cloninhas de Janis, ao jovem adulto que queria estrangular o publictário de opiniões polêmicas ( “Nunca houve rock no Brasil a não ser nos anos 70” ou “Recomendo que você estude e tenha uma profissão decente, que música não é futuro pra ninguém”, como ele respondeu a uma leitora da Revista da Folha em algum momento do começo dos anos 90). E ele ainda veio como Joelho de Porco, como Z., o cara que não levava listas de discussão a sério e participava de 500 delas, como o curador do Caiubi, como o “tecladista” dos Tropeças. O cara sempre me pareceu ter o dom do alquimista, do midas, de transformar o banal em ouro pelo simples ato de revolver.

          Então porque raios eu fiquei de queixo caído quando ele entrou no palco como se fosse o Matrix, dançando como Michael Jackson, comandando um exército capaz de dominar a América armado de travesseiros de pena de ganso se assim quisesse? E por duas horas (que me pareceram longas na primeira noite e curtíssimas na segunda) eu tive a impressão de estar na frente de um 10. De um como se faz. The Way. Picasso, Van Gogh. O carisma, a certeza, a impudência, todos os atributos necessários a quem pleiteia o centro das atenções sendo entregues em doses generosas a uma platéia que veio na sexta e voltou e trouxe mais gente no sábado. Quando você vê o cotidiano, o simples, o banal, eu, você, sendo transformado em arte, em entretenimento de primeira, cai uma ficha, você ganha uma pista. Mas não vale a pena assistir um show de David Copperfield simplesmente para tentar entender como ele faz seus truques. Vale sim, para se acreditar em mágica. Mágica existe, tudo é real. Cumprimentos ao ilusionista.

Valeu, maestro!

Beijos,

Ricardo

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