Sobre o fabuloso show de Zé Rodrix com a Jazz Big Band no SESC Santos em 2008

Por Rica Soares

Em 2008 eu recebi uma ligação de Zé Rodrix: “- Gaúchinho, me manda uma gravação daquela sua música que eu falei que eu ia cantar um dia. Esse dia chegou e ela vai entrar no repertório deste show que eu vou fazer com a Jazz Big Band”. A música em questão era Fortaleza da Solidão, e eu lembro de um sentimento doce de sucesso, meio parecido com aquele de quando o Renato Ladeira me avisou que eu ia tocar com o Luiz Carlini no Festival da Globo. Do sucesso feito de pequenas doces experiências, mais do que qualquer tipo de superestrelato. Meus jogos de ego à parte, segue abaixo um relato do impacto que senti vendo aquele show de retorno de um grande ídolo aos palcos em altíssimo estilo e da alegria de poder estar ali do lado. O texto foi originalmente escrito e enviado para o grupo de emails do Clube Caiubi, no dia seguinte aos shows (e um pouco editado pra fins de clareza).

Outro dia, quando Vlado Lima reclamava de um disco ruim, me dizia que a vida é muito curta pra se perder tempo com música ruim, literatura ruim, bla bla bla, o que é bem verdade, e cada vez mais verdade a cada dia que passa, já que a cada dia que passa ela fica mais curta mesmo. E isso eu ouvi dele bem antes de afundar na minha crise dos 40 e decidir dar um basta num monte de tralha que acabava ficando na minha volta por simples inércia. O pior inimigo de um é o próprio, definitivamente. Ok, filtro anti-porcaria ativado você acorda de manhã querendo olhar a vida diferente e procurando o lindo, o belo, o algo mais no meio de tanto joio desta imensa fazenda transgênica chamada “indústria cultural”. É fácil achar isso nos clássicos, sejam eles filmes, livros, discos. Pra falar a verdade, pode-se ser feliz pro resto da vida, independentemente da sua idade, consumindo apenas o crem de la crem da produção cultural do século passado, por exemplo. Aliás, possivelmente se precisaria dumas 200 vidas pra se conseguir consumir tudo aquilo. Mas o novo, ah o novo. Seja na forma de um sobrinho recém-nascido, do campeão de judô de dois anos de idade que mora na casa do Sonekka, ou de um grande novo amigo de 70 anos como o Afonsão, o novo é o que nos faz vivos. Ponha um novo atrás do outro e ganhe a ilusão da vida, como um quadro após o outro dá a ilusão de movimento no cinema. E ponha um BOM novo após o outro e a vida ganha a ilusão de filme bom!

          Foi com esse espírito, mas não com essa expectativa, que eu cheguei a Santos na sexta a noite pra assistir Zé Rodrix e a Jazz Big Band. Veja bem: minha relação com o Zé, de fã, depois amigo, depois parceiro passou por inúmeras fases ( e isso só já é um mérito, uma revolução em si ): do guri de treze que não aguentava mais aquele carinha de óculos e bigode cantando “Mas quando será? Quando será?” (Quando será que essa música vai parar de tocar?), ao hippie dos anos 80 (!) que cantarolava ao violão em Sapucaia do Sul a Primeira Canção da Estrada pra xavecar as cloninhas de Janis, ao jovem adulto que queria estrangular o publictário de opiniões polêmicas ( “Nunca houve rock no Brasil a não ser nos anos 70” ou “Recomendo que você estude e tenha uma profissão decente, que música não é futuro pra ninguém”, como ele respondeu a uma leitora da Revista da Folha em algum momento do começo dos anos 90). E ele ainda veio como Joelho de Porco, como Z., o cara que não levava listas de discussão a sério e participava de 500 delas, como o curador do Caiubi, como o “tecladista” dos Tropeças. O cara sempre me pareceu ter o dom do alquimista, do midas, de transformar o banal em ouro pelo simples ato de revolver.

          Então porque raios eu fiquei de queixo caído quando ele entrou no palco como se fosse o Matrix, dançando como Michael Jackson, comandando um exército capaz de dominar a América armado de travesseiros de pena de ganso se assim quisesse? E por duas horas (que me pareceram longas na primeira noite e curtíssimas na segunda) eu tive a impressão de estar na frente de um 10. De um como se faz. The Way. Picasso, Van Gogh. O carisma, a certeza, a impudência, todos os atributos necessários a quem pleiteia o centro das atenções sendo entregues em doses generosas a uma platéia que veio na sexta e voltou e trouxe mais gente no sábado. Quando você vê o cotidiano, o simples, o banal, eu, você, sendo transformado em arte, em entretenimento de primeira, cai uma ficha, você ganha uma pista. Mas não vale a pena assistir um show de David Copperfield simplesmente para tentar entender como ele faz seus truques. Vale sim, para se acreditar em mágica. Mágica existe, tudo é real. Cumprimentos ao ilusionista.

Valeu, maestro!

Beijos,

Ricardo

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